Amor, Miojo?

No Brasil hoje se comemora o dia dos namorados.

A curiosidade é que a data foi criada pelo publicitário João Doria (pai do ex-prefeito de São Paulo) e é dia 12 de Junho, pois é véspera do Dia de Santo António, o santo casamenteiro. Ele apresentou a ideia aos comerciantes paulistas e a lançou em junho de 1949 com uma campanha cujo slogan era “não é só com beijos que se prova o amor” e logo o Brasil todo aderiu!

Veja! Nada de mais, a não ser uma data comercial, e assim não comemoramos com o resto do mundo (dia de São Valentim) porque se comemora em fevereiro (dia 14), quando já temos o carnaval. Porém foi em junho, pois não havia nenhuma data comemorativa que impulsionasse o comércio.

A bem da verdade o que me traz a escrever é sobre o que se insere em termos do  relacionamento. Sabemos que nessas datas muito se é dito, mas de fato pouco se é feito!

Amor miojo love

“O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento.” Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman em seu “Amor Líquido” fala sobre a fragilidade em que nos encontramos nos relacionamentos em tempos de realidade virtual. Fala do liquido em contraponto ao solido, a solidez, o líquido como aquilo que nos escapa às mãos.

Penso, ou sempre procuro pensar, no caminho que se traça. Como chegamos a isso ou aquilo? Qual processo percorremos, individual ou coletivamente?

O resultado não é só liquido é também instantâneo como uma Polaroid, mas não só, avançamos muito mais. Nesses dias não se quer nem mais esperar que o filme (instantâneo) se revele, não precisa, basta “postar”. Não precisamos mais curtir o jantar, aproveitar a suculência dos alimentos, precisa que seja rápido apenas para que vire um “history”, mesmo que se apague em 24 horas ou ainda mais rápido se for um “Snapchat”.

Esse é o resultado, mas e o caminho?

Vamos pensar na Polaroid, nasceu em 1937, lançou a máquina em 1949 (ao preço semelhante ao de um Iphone), popularizou no mundo na década de 70 e praticamente faliu em 2001. Já a Apple, nasceu em 1976, lançou o Iphone em 2007 (quase 10 após o surgimento dos smatphones) e virou coqueluche sete anos depois.

Essa curta história paralela de duas empresas, ou dois produtos, me faz revelar uma constante: o consumo!

 O smartphone foi lançado em 1999, dois anos antes da “falência” da Polaroid.

Apesar da Polaroid estar à mão, era (e ainda é) usada apenas nas celebrações, viagens,etc…, a ideia era tirar, ou melhor, registrar os momentos de alegria, de relações sólidas. Já os smatphones estão à mão também para isso e muito mais: se comunicar!

As distâncias foram encurtados de tal forma que falamos com outros países por imagens, vídeos, assim criamos as redes virtuais e tudo o que todos vemos e sabemos.

Mas, o que aconteceu com as relações? Apesar das distancias curtas, nos afastamos do contato, do afeto.

 O consumo e a tal psicologia moderna nos propôs relações com menos frustrações (ou nenhuma), não é preciso esperar ninguém chegar, podemos participar tudo em tempo real, acompanhar onde está pelo gps. Não precisamos mais de perguntas, temos muitas respostas, a ansiedade pela viagem, foi trocada pelos passeios virtuais, muita gente conhece seu destino sem nem precisar chegar. Criamos agendas tão bem planejadas que evitamos qualquer desconforto, assim ter uma mala extraviada é quase como o fim do mundo, pois prevemos tanto que deixamos de viver o inesperado, a adrenalina do novo!

Em tempos líquidos, não podemos mais esperar o ponto do macarrão, precisa ficar pronto rápido, instantâneo, mesmo que o gosto não seja lá essas coisas!

Esperar o ponto do macarrão é como a paquera, literalmente vamos cozinhando a relação. A paquera é o primeiro ponto para nos conhecermos, é aquela fase do outro, do olhar, do descobrir do se encantar. À medida que a temperatura aumenta, não da água fervente (essa também) vamos nos dispondo (e não despindo) ao outro, até que ocorre o primeiro beijo (o ponto do macarrão), daí em diante nos misturamos, nos conhecemos e damos o primeiro passo à intimidade (o molho se mistura à massa), temperamos , sim nos temperamos, reconhecemos o humor um do outro, sua tez, textura, cores, toques e como a massa, é nessa hora e só nessa hora, que organizamos o ambiente, que alcançamos o ápice do desejo e nos deleitamos com os sabores que se aproximam.

Arrisco dizer que quanto mais nos detemos ao momento, quanto mais saborosamente curtimos a experiência, mais intensamente alçamos o êxtase dessa relação.

Repetir essa construção, dia a dia, aproveitar cada novo sabor, saber, novo tempero, voltar em outros, dialogar com esse novo, velho, é que nos faz solidificar as relações.

Mas o que fizemos? Trocamos o desejo pelo resultado, o sexo em si, não tem ebulição, o sucesso não é mais um caminho é uma forma de apresentação, um cartão de visitas, não é mais individual, para si, é para o outro, os outros.

Por quê?Por que precisamos parecer que somos, pois tudo é tão rápido que pouco importa o gosto, basta que rapidamente seja plástico, melhor, plástico eram as polaroides, precisa ser visto, é preciso ter a aparência!

Não estou falando de amor, amor é fluido, existe para todos nós, apesar de muitos ainda confundirem com paixão. A paixão pede o miojo, o amor a massa!

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